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Iluminuras lança 'O Horror Sobrenatural em Literatura'!
Espectros do Terror

A editora Iluminuras lança o estudo panorâmico do escritor norte-americano H.P. Lovecraft sobre a novela gótica que vai de seus primórdios até o início do século XX.
Dizem que o norte-americano H.P. Lovecraft (1890-1937), um dos
grandes escritores de literatura sobrenatural do século XX, era
homossexual, misantropo e amigo do bruxo Aleister Crowley - que por
sinal influenciou a partir da década de 1970 o nosso mago acadêmico
Paulo Coelho. Afora os boatos que talvez lhe enriqueçam uma aura
misteriosa, de Lovecraft fica mesmo, além de seus escritos
ficcionais mirabolantes e assustadores, o texto do ensaio
superficial - como toda panorâmica costuma ser - intitulado 'O Horror
Sobrenatural em Literatura' que a editora Iluminuras, muito afeita a
bons autores soturnos, está publicando agora. Antes de ser uma
análise sobre as transformações por que a novela de horror passou ao
longo do tempo, o que lhe daria maior substância, o estudo é na
verdade uma mera compilação de autores que contribuíram para o
gênero, juntando-se a isso pinceladas pessoais da crítica mais
cortante que Lovecraft sabe fazer com destreza.
O tropel de histórias que se passam em castelos antiqüíssimos, em
quartos mal-iluminados e corredores sombrios com heroínas imaculadas
perseguidas por vilões tirânicos, seres desconhecidos e situações
fantásticas delineiam os caracteres de um percurso literário gótico
que começou com as páginas que o inglês Horace Walpole dedicou à
história de Manfred, em 1764, no seu O Castelo de Otranto. Mas o que
produziu Otranto, excetuando é claro a inventividade de Walpole, foi
o sentimento estético do maligno, do sombrio, do noturno, do
demoníaco, do pavoroso e do cósmico que desembocou no espírito do
século XVIII.
"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo
de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido",
escreveu Lovecraft na primeira linha do livro. E não foi à toa.
Desde momentos imemoriais da história humana, temer o que se
desconhece tornou-se o componente principal dos ritos religiosos,
das lendas orais repassadas para as gerações seguintes e dos mitos
de destruição e terror que mexiam com arquétipos centrais do
inconsciente coletivo.
O gótico, nascido na Inglaterra, é a expressão na literatura desses
medos humanos, intensificados na Idade Média, que eram a ordem do
dia até então, mas que o advento do Iluminismo os estava fazendo
cair por terra. Era então um desafio à filosofia das luzes, um
processo de colocar em xeque o homem no seu lugar cartesiano e
apontar possibilidades outras ao mundo vigente. Na narrativa, o
estilo gótico busca criar uma ambientação favorável ao encontro dos
personagens com o insólito; tudo, cheio de devassidão sexual,
deformidades do corpo, loucura, fantasmas e monstros.
E é justamente o que Lovecraft, cônscio dos limites do gênero, exige
dos autores que analisa, como por exemplo ao mencionar a obra A
Terra Noturna (1912) do inglês William Hope Hodgson (1877-1918) e
escrever que ela é "seriamente arruinada por penosa verbosidade,
repetitividade, sentimentalismo artificial, enjoativo e
pegajosamente romântico". Assim como fez com o senhor Hodgson,
Lovecraft faz com tantos outros. Publicado inicialmente em 1927, o
estudo foi revisado pelo autor em 1935. E um capítulo à parte é
dedicado a Edgar Allan Poe, por quem Lovecraft tinha profunda
reverência e admiração.
Outros medalhões como Emily Brontë, Mary Shelley, Victor Hugo, Oscar
Wilde, Baudelaire, Bram Stoker são citados no livro ao lado de nomes
menos conhecidos. A excelente tradução de Celso Paciornik consegue
suplantar a leve estranheza que causam as novas regras do Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa que já estão sendo adotadas nesta
edição. E, como num conto do século XVIII, Lovecraft termina seu
livro com um finis, sombrio como sua vida, sua obra e a literatura
de horror que tanto amava.
SERVIÇO:
O Horror Sobrenatural em Literatura, de H.P. Lovecraft, tradução de
Celso M. Parciornik, editora Iluminuras, 126 páginas. Preço: R$
35,00.
MAIS:
- É preciso diferenciar ainda o estilo gótico arquitetônico, que
brotou no século XII, e um estilo de comportamento também de mesmo
nome, que começou no século XX.
- O gótico arquitetônico começou na inovação que prometia acabar com
as igrejas escuras da época. Foi o abade Suger que inseriu na Igreja
de Saint-Denis, nos arredores de Paris, vitrais que recobriam as
janelas dos oratórios e permitiam à luz do dia espalhar-se por todo
o coro, desobstruído das grossas paredes. O biografista Georgio
Vasari, no século XVI, acabou batizando o novo estilo de gótico ou
ogival, em que a outra inovação, o arco quebrado, seria o símbolo de
mãos erguidas ao céu em oração.
- Já o comportamento gótico é fruto do final da década de 1980. Esse
movimento de contestação trouxe à baila a androginia, as maquiagens
pesadas, as roupas pretas e a música (cheia de decadência e
niilismo), com ritmos do rock. O soturno, o satânico e o sombrio são
referências fortes desses grupos. Obviamente, a indústria cultural,
com o cinema e a televisão, já se usou dos elementos góticos para
produzir quantidade variada de produtos para o mercado consumidor
dark, passando por filmes, programas de TV e peças de vestuário.
Fonte: Alan Santiago especial para opovo.com.br.